Estrelas do meu céu...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A última que morre


Ao som de "Sing", My Chemical Romance

Desde a graduação aprendi - e hoje vivencio - que Psicologia, ao contrário do que muitos dizem e acham sem saber de fato, não é uma profissão da alegria; além de todos que nos procuram não estarem verdadeiramente felizes - desconheço alguém plena ou parcialmente feliz que tenha procurado auxílio psicológico - nós, profissionais, apenas nos sentimos felizes quando uma intervenção funciona ou quando um cliente tem "alta". Sabendo disso, muitas vezes volto para casa triste... uma tristeza que diz da minha limitação em conseguir ajudar o outro; por vezes isso me dói muito.
É nesse contexto que a mais de dois meses fui à sauna, para relaxar a mente e o corpo... esquecer em meio o vapor as tristezas que fui acumulando. Sentado em uma mesa, entre uma sessão de vapor e outra, tomando um refrigerante, fiquei observando três adolescentes jogando sinuca no bilhar um pouco à esquerda (sei que eram adolescentes pelo modo de conversarem, as brincadeiras típicas da idade e a fisionomia). Enquanto eles brincavam e vibravam com as bolas encaçapadas, bebiam pinga (um deles pediu duas doses em poucos minutos, o que me deixou preocupado) me perguntava porque eu nunca aprendera a jogar ou a beber; logo percebi que meus pais nunca haviam me incentivado a frenquentar ambientes com bebidas alcoólicas ou com jogos (quaisquer que fossem) e meu grupo de amigos sempre foi comportado. Também sempre fui muito senhor de mim, sabendo desde cedo o que era bom e ruim. Aprendi com meus pais a enfrentar meus problemas de frente, o que agradeço eternamente.
Durante o tempo de observação, tenho o péssimo defeito de me perder nos meus pensamentos, tanto que um dos rapazes chamou a minha atenção, perguntando se eu queria algo; percebi que estava encarando demais e disse que não, que estava apenas pensando.
É claro que passei a ser a nova atenção dos garotos; como não estava preocupado, terminei o copo de refri e voltei ao vapor, desejoso de que além dos problemas, o vapor ajudasse a dissolver as gordurinhas localizadas também (risos). Mais quinze minutos na sauna quente e sai para a ducha fria e o ar leve do lado de fora da câmara. Não me surpreendi de encontrar os jovens ainda jogando bilhar.
Quando sentei na mesa onde estava, um deles chegou e sentou na cadeira ao lado; achei estranho mas não disse nada. Percebi que os outros dois companheiros observavam a cena entre preocupados e ansiosos. Depois de um minuto de silêncio, o rapaz que estava sentado na minha mesa perguntou sem rodeios, embora em tom de voz baixo:

- Vai querer um, mano?
- Um o que? - perguntei realmente curioso.
- Uai! Um baseado! É do bom...
- Ah! - respondi um tanto espantado - Não. Valeu... eu não uso.

Percebi que o rapaz ficou paralizado. Não disse nada e ficava me encarando, enquanto eu continuei tomando meu refrigerante.

- E você não vai brigar comigo, me mandar ir pra igreja, me mandar estudar... nada?

Nesse momento, olhei bem para o rosto daquele jovem. Não aparentava ter mais que 16 anos; era um rosto bonito... pensei numa fração de segundos em tudo o que eu poderia dizer para ele, em todas as dicas e intervenções psicológica que poderiam ser efetivas; pensei que poderia pegar ele pela camiseta e bater até criar juizo ou que ligaria para o Conselho Tutelar e diria o que estava acontecendo. Contudo, apenas disse:

- Não vai adiantar. Você é covarde demais para isso!

Percebi um pouco tarde que tinha machucado o brio do rapaz. Ele ficou colérico. Levantou e disse que me "apagava" ali mesmo. Continuei sentado; o dono da sauna logo veio perguntando o que estava acontecendo; os outros rapazes chegaram para ajudar o colega. Eu pedi para que ele se acalmasse e sentasse novamente.
Um tanto exitante, ele obedeceu. Talvez a curiosidade tenha sido mais forte; talvez minha tranquilidade o tenha assustado; talvez minha condição de autoridade o tenha feito obedecer... são muitas hipóteses.

- Não sei o seu nome, mas sei que não é maior de idade. - comecei dizendo - Assim como sei que tudo o que eu poderia dizer, você já ouviu de alguém. Mas, acho que o seu grande problema é não ter coragem de enfrentar os problemas, e dizer para você mesmo que consegue vencê-los. Quando passar a usar toda essa "bravura" que mostrou agora querendo me bater, lutando contra os seus próprios defeitos, sendo corajoso (e se me permite, homem de verdade) em reconhecer que tem essas dificuldades, tenho certeza que será um jovem muito mais maduro e responsável.

Novamente ele se levantou muito irritado. Gritou, apontando o dedo para mim:

- Não tenho que provar nada pra você não, mané!
- Você deveria provar é para você mesmo! - respondi calmamente. Olhei bem nos olhos dele e voltei para a sauna.

Fiquei mais tempo dessa vez; confesso que não estava tão agradável quanto as entradas anteriores, pois detesto discussões. Quando sai, os jovens não estavam mais lá. O dono da sauna disse para eu não preocupar que aqueles "moleques" não iam voltar para me atrapalhar. Fiz que sim com a cabeça, sem prestar realmente atenção. Fui embora alguns minutos depois, sem estar mentalmente relaxado.
A vida seguiu... continuei no trabalho que amo e que abraço com coragem, mesmo que me doa algumas vezes. Entre um drama e outro contudo, na sexta-feita, encontrei o mesmo rapaz que havia visto na sauna. E qual não foi minha surpresa quando o vejo sair de uma igreja.
Percebi que estava cochichando com uma senhora que julguei ser sua mãe. Fiquei na minha, pois estava apenas de passagem, quando...

- Ei, moço?! - chama a senhora.
- Pois não. - falei, pronto para me defender de qualquer acusação (a mente humana é ótima... não fiz nada errado e ainda assim tive medo de repreensão, rs).
- Meu neto disse que você falou umas "coisas" com ele uns tempos atrás... - começou ela.
- Ah, sim! Olha, a senhora me desculpe... - tentei continuar, mas ela me interrompeu.
- Eu que tenho que pedir desculpas pelo meu neto e te agradecer também. Naquele dia ele chegou muito nervoso em casa; nunca tinha visto ele tão brabo. Quebrou muita coisa e ficava dizendo que ia provar pra um certo "mané" que ele valia alguma coisa. Ficou assim a noite inteira . Quando foi no outro dia, voltou pra escola. Durante a semana inteira, ficou com a cara amarrada. Eu tentava fazer ele dizer o que ele tinha, mas sempre que eu perguntava, ele saia, mais nervoso ainda. Quando chegou no domingo, ele não aguentou: chorou o dia todo. Dizia que queria morrer e que não prestava mesmo pra nada... que o "mané" tava certo e que ele era um covardão, um mariquinhas. Foi aí que ele me contou tudo que aconteceu. Como avó, que criou ele como se fosse um filho, ajudei ele da maneira que eu sabia: Levei ele na igreja pra falar com o pastor, pedi pra um vizinho dar um emprego pra ele pelo amor de Deus. Hoje, quando te viu, disse que foi o senhor que falou aquelas verdades pra ele. Eu sou muito agradecida e rezo pro Senhor todo dia pra te iluminar. Você salvou a vida do meu neto e a minha, que já tava perdendo as esperanças. Deus te colocou no caminho do meu menino...

E nesse momento ela me abraçou e eu, muito emocionado, fazendo um esforço danado para não chorar também, retribuí, abraçando em seguida o menino-homem, que agradeceu também emocionado. Tentei dizer que não fiz nada (o que é verdade, pois disse a ele o que acreditava), incentivei o progresso deles, sugeri acompanhamento psicológico para trabalhar possíveis traumas na família e fui embora.
Aquela caminhada para casa foi a melhor que fiz na vida. A certeza de que estou no caminho certo, em termos de doutrina religiosa e em termos de profissão, alegraram e impulsionaram minha caminhada de vida; a certeza de que meu exemplo e o meu falar podem ajudar a modificar vidas, fortalece em mim a decisão de ser o melhor que consigo ser; a certeza de que a esperança é a última que morre me deu ânimo para abraçar novos desafios.

(esse diário explícito talvez tenha sido confuso... contudo, indelével para mim)

3 comentários:

Thalles Rezende disse...

Parabéns pela experiência única que viveu. Por coincidência, escrevi um pequeno texto em meu blog onde tb clamo pela felicidade!!!! O blog tá ótimo! Abç!

Luiz Carlos Meneses disse...

Parabéns, meu caro!
Excelente texto, excelente atitude!
Fiquei muito tocado pela sua experiência e isso também fortalece minha fé nas pessoas e na Psicologia!

Grande abraço!

Lana Vieira disse...

Não me surpreendi em nada com a sua atitude, hum... será porque? Talvez seja porque, certa vez, um estudante de psicologia carregou nos braços até o posto médico sua colega que passava mal compulsivamente devido a um grave problema de saúde. E esse mesmo estudante oferecia sempre a essa sua colega um "abraço de urso" (abraços dos quais jamais me esqueci). Este post me fez chorar!

Bjs meu Anjo!!!